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Pompeia brasileira

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Jessé Souza* Uma cidade inteira foi arrasada pelo terrorismo ambiental, em Minas Gerais. Não houve uma comoção social nas redes sociais. Nem míseras linhas de protesto inundaram a linha do tempo dos internautas brasileiros. Até mesmo uma repórter da Globo, conforme vídeo que circula na internet, fez cara de nojo para a população da cidade de Mariana, que queria expor sua indignação. Toda tragédia merece reflexão e solidariedade. Mas existe uma onda tipo boiada que foge à lógica: as tragédias que estão longe, muito longe de nós, mas massificada pela mídia internacional, ganham logo indignação coletiva, enquanto nossas tragédias são esquecidas no dia seguinte, sem qualquer ato de solidariedade virtual. Mas deixemos o “efeito binóculo” de lado. O que nos interesse, neste momento, é discutir com veemência os grandes projetos de desenvolvimento pós Mariana, pois restou comprovado que a mineração, setor apontado como futuro de Roraima, pode significar um terrorismo sem precede...

Turbinas do rincão

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Jessé Souza* Chegamos a uma encruzilhada depois de longo trajeto de enganação política a que o povo de Roraima foi submetido com relação à questão energética. Quem pertence à minha geração vem sendo ludibriado desde a adolescência com projetos que não passaram de muito gogó e demagogia para enganar eleitor em tempo de eleição. Um dos grandes engodos foi a chamada Hidrelétrica de Cotingo, que permeou os discursos dos políticos por longo anos, mesmo eles sabendo que esta obra seria difícil de ser negociada por envolver a intricada questão indígena. Ainda assim, foi usada nos discursos para enganar a opinião pública. O tempo passou e a energia de Guri chegou com o discurso de redenção, mesmo que os políticos também soubessem que o linhão vindo da Venezuela teria prazo de validade, o que restou comprovado, agora. Nesse meio tempo, as autoridades cruzaram os braços, porque, para muitos, não interessa Roraima se desenvolver e sair do buraco, pois os problemas que a população enf...

Uma sentença

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Jessé Souza* A situação chegou a um nível que, em Roraima, já foi ultrapassada a barreira do “sabe com quem você está falando?”. Agora, com os últimos acontecimentos, a lógica é outra: “Saiba com quem você está falando”, ou seja, “aprenda a falar com quem é superior a você”. Não se pergunta mais. Agora afirma-se como se fosse uma sentença (em alguns casos, de morte, como foi o triplo homicídio praticado por um policial militar). A impunidade é apenas um desses gatilhos que dispara o sentimento de superioridade e arrogância. Como os erros são negligenciados, isso é um passo para os crimes serem cometidos no exercício da função pública. E não me refiro somente a policiais, e sim a autoridades de uma forma geral. Há um descaramento para privilegiar os que se acham eleitos ou os que se colocam como parte integrante do poder - e o poder como extensão de sua casa e de seus negócios. Assim como a corrupção permite que as pessoas misturem dinheiro público com suas contas particu...

Resumo de como estamos

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Jessé Souza* Muda o governo, mas a desesperança não. O cenário de segunda-feira foi absolutamente preocupante para quem mora em Roraima: enquanto um policial com uma arma e um colete a prova de bala da corporação executava covardemente três pessoas a tiros e tentou matar outra, mais presos fugiam da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo. Quem achava que o dia já teria sido de muita violência e que bastava para um início  de semana, três elementos atacavam um policial em frente a uma movimentada faculdade particular, na área nobre de Boa Vista, a poucos metros de um dos shoppings. Horas depois, já na madrugada de terça-feira, um casal de moto foi literalmente estraçalhado em uma colisão frontal com um caminhão, no trecho sul da BR-174. Significa que a segunda-feira foi o retrato fiel do que Roraima se transformou: insegurança, violência e desesperança, com policiais se confundindo com bandidos, enquanto os bandidos sem farda aterrorizam a cidade, não poupando sequer poli...

Nariz virado para cima

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Jessé Souza * Depois de gastar R$2 milhões, a Prefeitura de Boa Vista reinaugurou a Orla Taumanan com festa e rojões, na sexta-feira passada. Mas haveria motivo para tanta festa assim? Particularmente, para quem ganhou dinheiro para fazer aquela obra, tinha motivos de sobra para soltar fogos de artifício. Porém, não para o povo, que bancou a obra e a festa, nem tanto. Como tenho um site que incentiva o turismo receptivo (www.roraimadefato.com/main), e a Orla é um dos locais turísticos principais do Estado, então decidi ir por lá neste fim de semana para checar a nova estrutura. Nada de extraordinário, nada de espetacular, a não ser o que era esperado: a reforma geral do piso e a reconstruções dos quiosques. Porém, um grande problema logo se apresenta para quem vai aos quiosques. E não precisa ser engenheiro, arquiteto ou babalorixá para prevê que as coberturas feitas para abrigar o público daqueles quiosques não resistirão à mínima chuva de verão, muito menos a um inverno...

Do tempantigo

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Jessé Souza * Posso dizer que tive a infância e a adolescência privilegiadas em um tempo em que livro era uma raridade. Por mais absurdo que possa parecer, a TV daquela época, das décadas de 70 e 80, supriram muito a lacuna da falta de livros e da distância das escolas com a leitura e com a cultura. Na transição dessas duas décadas, passava Charlie Chaplin nos programas vespertinos (sim, isso mesmo: em preto e branco,como no cinema mudo, apenas com algumas legendas). Os programas de humor eram com os Três Patetas e Jerry Lews. Humor puro, sem duplo sentido, sem apelação, com inocência, com direito a pastelão e tudo o mais. Também nos programas vespertinos passavam os longos filmes de Elvis Presley. Como assim? Isso mesmo. O “Vale a pena de ver de novo” de nossa época era com as aventuras de Elvis Presley, que lutava contra bandidos e dava shows de rock por onde passava, cantando, tocando e dançando em cima de capô de carro e da mesa dos bares. Ainda lembro que um de noss...

O vídeo e a escola

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Jessé Souza * Assisti ao vídeo do garoto derrubando tudo na sala de uma escola pública. Tudo devidamente filmado com as vozes de professores dizendo: “deixa ele”, “não toca nele”, “deixa ele quebrar tudo”. E dá-lhe comentário nas redes sociais do tipo “se fosse, meu filho...”, “projeto de bandido...” (aí já metem o PT no meio), “deliquente desde pequeno”... Estudei no antigo Magistério, no final da década de 80, que era nossa antiga faculdade quando não havia universidade para formar professores. E encarei uma sala de aula na educação infantil, cujos alunos tinham idade muito semelhante a do garotinho do vídeo. As imagens mostram claramente que o garotinho hesitava em derrubar as coisas. Mas ele se via incitado de alguma forma pelas vozes: “deixa”, “não toca”, “quebra tudo mesmo”. Ao hesitar, ele estava querendo que apenas alguém o impedisse de alguma forma, mas da maneira correta, com as palavras e atitudes certas. Já fui criança birrenta e sei que, muitas vezes, fa...