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Figurinha repetida

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Jessé Souza* Por ventura um leitor pegasse um jornal impresso da década de 90 para pesquisar, iria facilmente perceber que os políticos pregavam os mesmos discursos sobre ir a Brasília não só cobrar matriz energética, mas também asfaltamento de estradas, novos presídios, mais recursos, mais dinheiro, mais grana, mais cifras. Em certos momentos, dinheiro não faltou, mas as obras nem sempre saíram. Hoje, o Estado de Roraima ainda busca uma matriz energética e os políticos continuam com o discurso de que irão a Brasília cobrar que finalmente tenhamos um fornecimento de energia confiável, pois a energia fornecida pela Venezuela, considerada como o grande feito de outras épocas, hoje é um fantasma a atormentar o roraimense, que teve de voltar às termelétricas movidas a diesel, altamente poluentes e inconfiáveis. Sempre foi assim. Brasília historicamente deu as costas para Roraima, obrigando a população local a buscar alternativas nos vizinhos Guiana e Venezuela, seja em busca d...

Diógenes e o FGTS inativo

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Jessé Souza* Quando criança, eu gostava de colecionar coisas. Qualquer tipo de coisa, de pedras com formas diferentes a “santinhos” de candidatos em campanha eleitoral. Eu fazia meu pai me levar na garupa da bicicleta nos diversos comícios só para eu juntar panfletos. Já adolescente, recortava anúncios de revistas para colecionar os vários modelos de letras usadas nas publicidades impressas. Até hoje colho alguma pedra diferente por aí. Mas não sou mais aquela criança que juntava tudo. Só pego agora se achar realmente interessante e que possa servir não apenas como lembrança, mas também como uma “obra de arte” na minha estante. Parei de colecionar quando li um texto sobre Diógenes de Sinope, chamado de o Cínico, um filósofo da Grécia Antiga. Em Atenas, ele se tornou um mendigo que vivia em um grande barril (acho que o personagem mexicano Chaves foi inspirado nele). Pela pobreza em que vivia, o nome de Diógenes passou a denominar um distúrbio comportamental no qual a pessoa...

Ladrões e antropofagia

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Jessé Souza* Se um político, que sabidamente gosta de misturar o dinheiro público com sua conta particular, chegar ao Aeroporto Internacional de Boa Vista e alguém gritar “pega ladrão!”, provavelmente as pessoas irão dividir sua opinião entre concordar timidamente ou recriminar quem deu o grito. Porém, em hipótese alguma, não será formada uma turba para atacá-lo e linchá-lo em praça pública. No entanto, acaso alguém gritar “pega ladrão!” direcionada a uma pessoa qualquer, que não seja política nem esteja vestida em trajes de quem acaba de chegar de um voo, as chances são enormes de logo surgir gente ensandecida, com sangue nos olhos, querendo espancar ou até mesmo linchar esta pessoa, ainda que não haja provas concretas de que se trate mesmo de algum ladrão. Embora pareçam cenas hipotéticas, elas são bem reais em Roraima. Um político foi chamado de ladrão, no hall do aeroporto, ao chegar de Brasília, mas ficou por isso mesmo. No máximo, alguns ficaram de plateia em um silê...

Desistir, jamais!

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Jessé Souza* No momento em que os calhordas perderam a vergonha de se posicionar abertamente por meio das redes sociais, é preciso reforçar a necessidade de as pessoas que defendem uma sociedade menos injusta não percam a coragem de se manifestar. É essencial não se intimidar diante do avanço dos canalhas, xenófabos, racistas, preconceituosos, ultranacionalistas e toda espécie que se coloca como pós-modernista ou defensor da “moral e dos bons costumes”, além dos que usam a Bíblia para legitimar seus ataques. O Brasil foi construído a partir de uma base de injustiça em todos os níveis, com a afirmação de uma sociedade dividida, cujo processo de exclusão social construiu castas que dominaram o país, fazendo surgir a pior raça de políticos que o mundo já conheceu. Essa casta montou uma quadrilha institucionalizada que opera um mecanismo de exploração da sociedade por meio de fornecedores dos governos em todos os níveis e grandes partidos políticos, conforme apontou o procurad...

Resistindo ao tempo

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Jessé Souza* Sou do tempo da máquina de datilografia e do telefax, que “cuspia” textos e fotos em papéis de textura lisa, como se fossem pergaminhos sintéticos. E desde que a internet se popularizou, em Roraima, quando sequer eu tinha um e-mail, ouvia os cavaleiros do apocalipse pregando que os jornais de papel iriam morrer em pouco tempo. Sobrevivemos. Porém, mais recentemente, com a chegada das redes sociais, dos youtubers, dos chamados influenciadores digitais e do WhatsApp, as aves do agouro passaram a pregar que a imprensa tradicional irá desaparecer, ao ser devorada pelo imediatismo da internet e com todos tendo a ampla possibilidade de produzir informações e “notícias” a qualquer momento. Sobrevivente das barulhentas máquinas de datilografia e das redações empestadas pela fumaça dos cigarros de jornalistas nervosos, é como se eu tivesse saído da “pedra lascada” e passado a viver na “pedra polida” dos silenciosos computadores, com a substituição das fotos em papel, q...

O ovo deu cria

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Jessé Souza* Na noite de domingo, surgiu a informação, nos grupos de WhatsApp, de que um suposto venezuelano teria praticado assalto e atirado contra um policial que o perseguia. E logo começaram os discursos contra os venezuelanos, como se todos que viessem para Roraima, em busca de oportunidade, fossem um bandido em potencial. É fato que a Venezuela impõe as mais duras fiscalizações em seus postos militares de vigilância, as temidas alcabalas, dominadas muitas vezes pela corrupção institucionalizada; enquanto isso, no Brasil, a BR-174 é frágil em fiscalização, mas não apenas para venezuelanos, como para qualquer traficante ou outro tipo de criminoso brasileiro ou de qualquer outra nacionalidade. Em Roraima, criou-se um “ovo de serpente” desde a ruidosa disputa pela Terra Indígena Raposa Serra do Sol, quando a população foi insidiosamente manipulada a ter preconceito e racismo contras os índios, como se eles fossem os responsáveis por todos os males que o Estado enfrentav...

No meio da tarde

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Jessé Souza* Não é meu costume ficar um dia dentro de casa, parado na frente de uma TV ou conectado na internet. Porém, depois de uma viagem cansativa para o Uiramutã, por exigência do corpo, fiquei quase toda a segunda-feira de Carnaval no quarto, com a televisão ligada. E, vez ou outra, acessava as redes sociais e alguns sites de notícias. Mas o que me impressionou mesmo foi, no meio da tarde, ver os programas policialescos transmitidos principalmente de São Paulo, na TV aberta. Os programas locais, nesse mesmo tom, não deixam a desejar os de fora. Quando estive em Belém (PA) e em Fortaleza (CE), há um certo tempo, também pude assistir aos programas policialescos e vi que todos são irmãos siameses, mudando apenas o endereço. Em poucos minutos, zapeando pelos canais, vi que esses programas de grande audiência exploram a violência e entram na mente do telespectador, que passa a viver as cenas de tragédia como se fosse sua própria vida. A reatividade é imediata. É como se fô...