Beco sem saída

Imagem: ffescritor.wordpress.com


O que os bandidos estão fazendo no sistema prisional é consequência de anos de abandono por parte do Governo do Estado. Os presídios tornaram-se uma fachada vigiada por fora por policiais e com os criminosos comandando pelo lado de dentro. Então, quando as autoridades apertam um pouco o cinto tentando controlar a situação, os detentos reagem pressionando o governo.

Como a direção do sistema sempre vinha agindo de forma benevolente, fazendo concessões, permitindo privilégios e aceitando a figura de “chefes de alas”, não demorou muito para surgir um poder paralelo dentro dos presídios. Esses privilégios acabaram servindo de adubo para a organização dos presos e, consequentemente, para a instalação de facções criminosas.

Esses privilégios, de alguma forma, foram o meio que antigas (e atuais) direções encontravam (e encontram) para que a panela de pressão não explodisse. Como o Estado largou o sistema prisional há décadas, com estrutura defasada, superlotação e toda a favelização que já conhecemos, essas concessões eram vistas como um acordo para que lideranças dos criminosos controlassem o que o governo não conseguia mais impor ordem.

A situação chegou a um nível tal que, em dado momento, ninguém sabia mais quem era o crime organizado, se os bandidos presos como lideranças ou servidores públicos que comandavam os presídios e que passaram a fazer acordos; ou os dois juntos.

Tal fase foi ultrapassada a partir de operações policiais que desarticularam esse tipo de crime organizado. Mas os privilégios e concessões continuaram até que as facções criminosas se instalaram na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo. E são esses líderes de facções que não querem mais aceitar perder o poder e os privilégios que eles sempre tiveram.

Sem condições de restabelecer a ordem e impor o que manda a lei, o Estado sente dificuldade em retomar o sistema prisional. Daí surge toda essa pressão que está sendo articulada pelos criminosos, arquitetando fugas, armando tumulto e dando ordem para as mulheres de criminosos se articularem em mobilização.

O fato é que a sociedade não pode mais aceitar a omissão das autoridades com os presídios, pois foram elas que permitiram que o crime montasse um poder paralelo. Então, ou o Estado e os demais poderes constituídos se unem, ou o crime organizado vai vencer mais essa. E sempre quem paga o pato, quando o Estado falha, todos já sabemos: o povo, o principal alvo da criminalidade.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista 

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