Aos escarnecedores

Imagem: www.tijolaco.com.br

A posse da ministra Cármen Lúcia, na Presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), na segunda-feira, foi carregada de simbologia para quem ainda quer acreditar no Brasil e para os que se locupletam dele. O primeiro exemplo veio da decisão da magistrada, que recusou a festa e pompas das tradicionais solenidades de posse. O coquetel foi substituído pelo cafezinho e água. 

Ela argumentou que o momento no País, diante da crise política, não comportaria uma recepção e que, por isso, precisaria estar em sintonia com a sociedade. Trata-se de um contraste com o outro Brasil da gastança e do desperdício, no qual os políticos falam de crise, mas não dispensam as festas nababescas das solenidades ou mesmo gastos nos eventos corriqueiros, como sessões ordinárias dos legislativos cercados de mordomias.

Cármen Lúcia é uma esperança de que o Judiciário não esteja conivente nem de conluio com esta quadrilha que tomou o Brasil de assalto e quer enterrar a Operação Lava Jato. Aliás, na posse, o ministro Celso de Melo, o decano que falou em nome dos demais ministros, deixou claro que o STF sabe da existência dessa quadrilha.

Melo comentou sobre “uma estranha e perigosa aliança entre determinados setores do poder público, de um lado, e agentes empresariais, de outro”, cujas práticas “enfraquecem a instituições, corrompem os valores da democracia, da ética e da justiça e comprometem a própria sustentabilidade do Estado Democrática de Direito”.

E mais. Falou sobre a “captura das instituições do Estado por organizações criminosas, profanadores dos valores republicanos, marginais da República”. Ou seja, tudo o que se fala sobre a quadrilha que se apossou do País é de conhecimento da mais alta Corte judicial brasileira.

A ministra, hoje presidente do STF, quando votou por manter a prisão do então senador Delcídio Amaral (PT-MS), acusado de atrapalhar as investigações da Lava Jato, também foi bem clara neste sentido. Ela disse: “Primeiro se acreditou que a esperança venceu o medo; no mensalão, se viu que o cinismo venceu o medo; e agora que o escárnio venceu o cinismo”.

E todos queremos acreditar nas palavras da ministra: “O crime não vencerá a Justiça. Aviso aos navegantes dessas águas turvas de corrupção e das iniquidades: criminosos não passarão a navalha da desfaçatez e da confusão entre imunidade, impunidade e corrupção. Não passarão sobre os juízes e as juízas do Brasil. Não passarão sobre novas esperanças do povo brasileiro, porque a decepção não pode estancar a vontade de acertar no espaço público. Não passarão sobre a Constituição do Brasil”.

Crendo nas palavras da ministra, hoje ocupando o mais alto cargo da Justiça, queremos retomar a esperança para vencer o escárnio; queremos ver os mais escarnecedores da Nação atrás das grades, inclusive aqueles que nós, como eleitores roraimenses, enviamos para Brasília.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

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