Mesmificação e bestialização


Concursos de beleza servem não só à futilidade, mas a um mercado amplo que explora um padrão mesmificado que gera muito dinheiro a multinacionais que investem pesado em setores que vão da moda ao cosmético, da publicidade à propaganda, sempre fincado no endeusamento de uma imagem irreal, que só existe na fantasia midiática que vira a cabeça das pessoas desde tenra idade. 

Então, quando se une esse mundo fútil ao sentimento mais mesquinho dos seres humanos, que é o de superioridade e hierarquia de raças, surge a pobreza humana. É isso que estamos presenciando com a Miss Roraima, atacada severamente pelo fato de ter uma beleza que logo foi apontada como estereótipo indígena. 

A mesmificação bem elaborada por um conjunto de estratégias pelo mercado da beleza e da publicidade acaba bestializando as pessoas, que anulam o seu senso crítico, fazendo aflorar o preconceito e o racismo. 

O caso da Miss Roraima é muito emblemático porque ele acaba por revelar o racismo parecendo que não se trata de racismo, que é renegar a origem indígena. Quando uma pessoa afirma que aqui, no Estado, “não existem apenas índio”, ela está externalizando seu racismo com os indígenas.

Em vez de combater e preocupar-se com o preconceito e o racismo contra o Estado e o povo roraimense, praticado pelos que moram no Sul e Sudeste, este tipo de pessoa se coloca na condição de “superior”, passando a negar a identidade cultural da região onde mora e acredita que o certo é mostrar que aqui “não existe ‘só’ índio”, como se o fato de “ser índio” significasse um ultraje.

Esse comportamento visa não ser comparado a índio, passando logo a se colocar como “superior”, ou seja, que não é “índio”, que por aqui “existem outras culturas”, que aqui a cidade é “civilizada”. 

Renegar a beleza da Miss Roraima nada mais é do que tentar negar a forte identidade indígena de nosso Estado, sua cultura, suas raízes e suas peculiaridades, pois a bestialização provocada pela mesmificação da indústria da beleza faz aflorar o racismo. As pessoas acreditam que o padrão de beleza é aquele ditado pela indústria que explora a mesmificação, logo não pode ter “traços indígenas”.

O racismo está tão arraigado neste episódio que as pessoas nem se dão conta de que a Miss Roraima é da Bahia, onde os primeiros índios foram contatados no achamento do Brasil. Então, o problema é, mesmo, com a beleza indígena, seja de onde for, e não apenas por ser de Roraima com sua forte cultura indígena.

É preciso que se combata isso, não a ferro e a fogo, como se louco fôssemos, mas com informação, com educação e conscientização. Afinal, com as redes sociais, os insensatos mostram que não têm medo de emitir sua opinião, então é preciso que os sensatos também tenham a mesma coragem de opinar em favor de uma sociedade melhor.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista 


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