O piloto sumiu


Quando os mandatários de todos os poderes constituídos, além dos órgãos e entidades que deveriam fiscalizar, mostram-se mais interessados em resolver seus problemas pessoais do que com o bem público, acontece isso: o crime organizado se apodera do Estado. Como a maioria das autoridades deixou de olhar por Roraima, os criminosos se organizaram e montaram um poder paralelo que dá às ordens de dentro dos presídios.

Há quase dois anos o sistema prisional vem dando sinais de colapso total, mas pouco se fez antes, durante e depois. Com a carnificina registrada no dia 16 passado, na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, todos se viram obrigados a agir, pois a situação  chegou ao fundo do poço, com as facções criminosas se devorando no que restou de estrutura caindo aos pedaços.

Com as autoridades inertes, o tráfico de drogas dominou boa parte dos bairros de Boa Vista, do mais nobre, na zona Leste, ao mais pobre, na zona Oeste. E a área conhecida como Beiral, no Centro de Boa Vista, a poucos metros das sedes do Executivo, Legislativo e Judiciário, é o maior exemplo do poder de mando dos traficantes e a maior vergonha para as autoridades constituídas. 

O avanço do tráfico é uma desgraça para qualquer sociedade, pois a partir dele surge toda espécie de crime, realidade alimentada por adolescentes que entram cada vez mais cedo para o vício e, logo em seguida, para o cometimento de pequenos delitos a fim de alimentar o consumo de droga, não demorando para estarem praticando grandes crimes.

Com o colapso do sistema prisional, os jovens que entram para a prisão como “aviões do tráfico” acabam sendo cooptados pelas facções criminosas, que os tornam “soldados” do crime, prontos para agirem no tráfico de drogas, em assaltos e até mesmo nos crimes de execução que se tornaram comuns no Estado, há certo tempo.

O Estado mostra-se perdido, pois as ações sociais e preventivas não conseguem mais fazer frente ao avanço das drogas e ao crime já instalado nos presídios. As polícias estão saturadas e sobrecarregadas, sem estrutura adequada.

A situação só não é pior porque, ao se dividirem e declararem guerra, as fações estão se devorando nos presídios, sem tempo para arquitetarem seus crimes contra a sociedade. Caso contrário, quem estaria sitiado neset momento seria o cidadão de bem, o pai de família. 

Enquanto os bandidos se matam, é necessário que os poderes constituídos retomem as rédeas desse Estado, pois não há mais como adiar soluções contra o crime. Se daqui a pouco essa guerra acabar e os criminosos voltarem a se unir, iremos pagar um preço muito mais caro. 

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

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