A esquerdopatia



Os ventos do “efeito Trump” que sopram dos Estados Unidos precisam ser sentidos por todo o mundo. As eleições por lá mostram uma forte possibilidade de o novo presidente da maior potência do mundo ser um bilionário altamente reacionário, que não têm meias palavras com relação ao belicismo e a imigrantes pobres ou religiões que eles acham uma ameaça.

O “trumpismo” expõe, com toda força, o racismo contra negros e latinos, principalmente, e até mesmo põe a sociedade em ataque contra religiões, como o islamismo. No Brasil, as forças radicais afloram de uma maneira bem explícita e agressiva, elegendo o PT como único símbolo da corrupção, mesmo os demais partidos, como PSDB e PMDB, sendo historicamente corrupta. 

Pior: eles põem no saco desse extremismo, junto com o PT, qualquer movimento de contestação, passando a ser rotulando pejorativamente como “de esquerda”, como se colocar de esquerda tivesse se tornado algo abominável, que qualquer contestador passasse a ser um “petista”, ou seja, algo que precisa ser exterminado.

O PT dificilmente se reerguerá por causa do erro de sua cúpula. Mas isso não significa que somente o PT representa a esquerda ou aqueles que contestam e não concordam com esse movimento reacionário que pipoca no Brasil, a esquerdiopatia, e aflora por todo o mundo.

Ser de esquerda não significa necessariamente estar filiado a algum partido. Em qualquer democracia, é necessário que existam espaços para a esquerda, para a contestação, para o inconformismo, principalmente porque a direita que se apossou do poder mistura conservadorismo, ações reacionárias, racismo e aversão a minorias, a exemplo de homossexuais.    

Essa direita se escorou nos porões da ditadura e cresceu abominando tudo aquilo que foi conquistado pelos mais pobres, especialmente os direitos adquiridos na Constituição de 1988, a “Carta Cidadã”. Se Trump ganhar nos EUA, essas forças só tendem a se fortalecer, especialmente no Brasil, que nunca conseguiu superar a Casa Grande e a Senzala. 

Estamos todos sob grande risco. Estão atacando tudo aquilo que se assemelhe à social democracia. E os trabalhadores são o principal alvo. A democracia precisa da direita e da esquerda. Precisa dos que defendem os pobres e miseráveis, assim como daqueles que defendem a força produtiva e os interesses dos ricos. 

Não é porque enterraram o PT que vão enterrar junto a esquerda. Essa esquerda petista, sindicalista e socialista está arquejando, mas isso não significa que a esquerda vá morrer, aqueles que não aceitam esse modelo que se implantou no país, reacionária e conservadora. E é isso que eles querem: dizer que todo contestador é de esquerda e que todo esquerdista é petista, e que por isso mesmo deve ser eliminado. Não podemos permitir isso. A esquerda precisa se recriar.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista 

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