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Sem bola de cristal

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Jessé Souza* Se a realidade brasileira tem servido para estrangeiro ironizar, então em Roraima estabeleceu-se o provérbio inglês no sistema prisional: “Não há nada tão ruim que não possa piorar” (Nothing só bad but it might be worse). Ninguém precisa de bola de cristal ou de babalorixá para prever que as prisões roraimenses são bombas prontas para explodir a qualquer momento. Todos alertaram para as tragédias há muito tempo - agentes carcerários, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), imprensa, políticos, leitores, internautas, pais de santos e cartomantes -, porém, não se viu mobilização das autoridades constituídas para atacar o problema de frente e de forma conjunta. Afinal, penitenciária é lugar apenas para bandidos de chinelos e os que não usam terno e gravata. A desmobilização pode ser vista a partir dos discursos que vêm de Brasília: quem vem mostrando poder nos seguidos governos sempre se esquivou de usar suas influências para solucionar a crise do sistema prisional ...

Contextualizando

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Jessé Souza* Roraima já circulou nas manchetes dos jornais do Brasil e do mundo pelo massacre de dez presos, no ano passado, quando o país começou a descobrir que retroagimos ao tempo da barbárie, em que presos se confrontam e os mais fortes queimam e esquartejam corpos, além de exibirem a cabeça dos executados como se fosse um troféu, a exemplo do que ocorria em séculos passados nos tempos obscuros da barbárie. Mas Manaus (AM) conseguiu superar com as cenas de horror ampliadas em uma carnificina já anunciada, uma vez que a realidade roraimense já seria suficiente para que, por lá, se tomassem providências, sabendo que existe um “intercâmbio” entre facções criminosas entre os dois estados. Mas não foi o que aconteceu por alguns motivos. Um desses motivos é que, no Amazonas, o sistema prisional foi privatizado, ou seja, preso encarcerado lá é lucro, e lucro nesse tipo de comércio significa também menos investimento possível para aumentar a margem. Afinal, a lógica desse...

Produto do crime

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Jessé Souza* A cada massacre em penitenciárias brasileiras, os mesmos discursos se repetem por parte de autoridades judiciárias, governantes e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB): que o sistema está falido, que os bandidos estão mandando nas prisões, que o crime organizado tomou conta do país, que não se investiu no setor... Embora tudo isso seja verdade, o que não se diz claramente é que essa falência e o fortalecimento do crime organizado não surgiram do nada e são resultados de décadas de desleixo por parte de todos os governos e produto da corrupção que tomou conta do país. Na mesma medida em que as facções políticas e partidárias montaram seu poder absoluto, até tomarem o Brasil por meio do golpe do impeachment, os criminosos sem terno e gravata também vinham se organizando e montando seus escritórios do crime nos presídios brasileiros. Em Roraima, a Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (Pamc), onde recentemente ocorreu um massacre e aonde vem ocorrendo consta...

Perguntas

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Jessé Souza* A situação de penúria em que se encontram várias prefeituras do interior, as quais foram assumidas por novos prefeitos no dia 1º, não significa somente incompetência administrativa e falta de recursos diante da crise política e financeira que se abateu sobre o Brasil. Ela é endêmica e se arrasta de longos anos provocada principalmente pela corrupção nas cidades loteadas pelos coronéis da política. Há dois exemplos que podem ser lembrados simbolicamente: o Município do Cantá, que passou por uma operação da Polícia Federal no fim do ano passado, e o Município de Iracema, assumido por um prefeito delegado da Polícia Civil, que encontrou a prefeitura jogada às traças e os bens saqueados sabe-se lá por quem. Desde quando surgiram, os municípios vêm sendo saqueados de todas as formas, seja de maneira direta, por prefeitos espertalhões, vereadores irresponsáveis e servidores idem; e também por parlamentares que constroem seus redutos eleitorais nessas regiões longe...

Vigilantes em 2017

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Jessé Souza* O ano de 2017 começa com a perspectiva de continuidade da crise que assola o país, mas com a cobrança de que os políticos, a começar pelos novos prefeitos e vereadores, possam dar exemplo de contenção de gastos e austeridade. Foi assim o discurso da maioria dos que assumiram em todo país, a exemplo de estados mais ricos, como São Paulo, onde o prefeito se vestiu de gari para dar uma simbologia à sua administração. Porém, em Boa Vista, antes mesmo da posse, os vereadores não só se mobilizaram como conseguiram um reajuste salarial, o qual acabou suspenso por meio de uma decisão judicial provisória. É uma vergonha e um desalento para quem foi às urnas acreditando em mudanças na política local.  A propósito, a legislatura passada acabou marcada pelos maiores escândalos de todos os tempos, na Câmara, com afastamento de vereadores por via judicial, denúncias de desvio de dinheiro, que chegaram a ser veiculadas em nível nacional, e concessões de regalias financ...

Um ano para nunca se esquecer

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Jessé Souza* O ano de 2016 ficará marcado definitivamente no Brasil, tudo a reboque do escancaramento do ataque sistemático dos corruptos aos cofres públicos, e com um detalhe importante: tentaram, por meio do oligopólio da mídia, encabeçado pela Globo, fazer a opinião pública acreditar que existiria apenas um único partido responsável pela corrupção, o PT.  A partir dessa investida organizada pelos “donos do poder”, fizeram as maiores atrocidades às instituições, à Constituição e à política. Começou em setembro, quando sacaram do poder uma presidente sem ter cometido crime, ao arrepio da Constituição, por meio de um conluio de uma maioria formada por canalhas, pois os corruptos queriam o poder a qualquer custo como forma de sobrevivência. Ao tirarem uma presidente legitimamente eleita, mas isolada pelo Congresso e aviltada pelo maior ataque midiático já visto pelo oligopólio da mídia, os canalhas que tomaram o poder deram sequência aos seus planos de minarem a Opera...

Um exemplo que se foi

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Jessé Souza* Dom Paulo Evaristo Arns morreu nesta quarta-feira, no meio do turbilhão que se tornou o Brasil, do anarquismo jurídico que começou no impeachment e que segue com a briga entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso, em que ninguém sabe quem manda e quem obedece. Não haveria momento mais simbólico e triste para esse ícone se despedir do Brasil. Para os mais novos e os sem-memória, é bom lembrar que Dom Evaristo teve toda sua vida dedicada não apenas à defesa dos direitos humanos no país. Ele também foi um dos principais atores na luta contra a ditadura, que se apossou do Brasil de 1964 a 1985, e a favor das Diretas Já. Isso significa que ele teve um papel não apenas importante, mas decisivo para a democracia brasileira. Além disso, foi considerado o “cardeal da esperança”, por sua dedicação na defesa dos mais pobres.  E toda essa sua luta, que não foi em vão, está sendo esfacelada por um Congresso mais corruto da história. Se Dom Evaristo não estive...