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O vídeo e a escola

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Jessé Souza * Assisti ao vídeo do garoto derrubando tudo na sala de uma escola pública. Tudo devidamente filmado com as vozes de professores dizendo: “deixa ele”, “não toca nele”, “deixa ele quebrar tudo”. E dá-lhe comentário nas redes sociais do tipo “se fosse, meu filho...”, “projeto de bandido...” (aí já metem o PT no meio), “deliquente desde pequeno”... Estudei no antigo Magistério, no final da década de 80, que era nossa antiga faculdade quando não havia universidade para formar professores. E encarei uma sala de aula na educação infantil, cujos alunos tinham idade muito semelhante a do garotinho do vídeo. As imagens mostram claramente que o garotinho hesitava em derrubar as coisas. Mas ele se via incitado de alguma forma pelas vozes: “deixa”, “não toca”, “quebra tudo mesmo”. Ao hesitar, ele estava querendo que apenas alguém o impedisse de alguma forma, mas da maneira correta, com as palavras e atitudes certas. Já fui criança birrenta e sei que, muitas vezes, fa...

Política do esfola-e-mata

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Jessé Souza* O que impressiona é o avanço de uma política do “esfola e mata”, que se amplia feito erva daninha a partir das redes sociais. É como se estivéssemos vivendo um “apocalipse zumbi”, em que a desumanização tornou-se regra de sobrevivência. A esperança saiu do discurso, a tolerância tornou-se quase uma ofensa e pedir justiça pelas vias legais e regras democráticas virou um sinal de demência. Quem está com a farda representando o Estado e a lei não hesita em esfolar quem lhe olha feio ou resmunga por seus direitos. É como se fosse um estado de exceção velado, no qual as leis só devem ser cumpridas quando tiver alguém olhando, a imprensa registrando e a sociedade monitorando. Quando os olhos fecham e as câmeras desligam, vale o esfolamento geral. A regra está se tornando o inverso do que diz a lei: agora todos são culpados até que provem o contrário. Parece que há uma ânsia de eliminar tudo aquilo que conquistamos a duras penas, como a democracia, as leis cidadãs, ...

Zaralho de asa

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Jessé Souza* Quem conhece a Praça da Bandeira sabe que ali era um lugar para as famílias se encontrarem, com feirinhas nos fins de semana e feriados prolongados. Era também um lugar de eventos cívicos para os estudantes e, em outras épocas mais distantes, de solenidades oficiais em datas importantes. Portanto, as quadras de esportes eram apenas um complemento dentro desse contexto, não era algo em destaque e com prioridade, pois a praça servia também como um espaço ao ar livre para as pessoas passarem o tempo, passearem com a família e observarem o visual de uma cidade de céus sempre limpos e bonitos.   Mas eis que a Prefeitura de Boa Vista, sem respeitar a História e o contexto, construiu um ginásio coberto, parecendo um monstro de lata que surgiu como se fosse em um filme de Transformer intervindo na realidade dos seres humanos, o que descaracterizou completamente o lugar, enterrando mais uma vez o respeito aos lugares históricos. Esse não é o único e primeiro ...

Um sobrevivente

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Jessé Souza* Quem nasceu nos anos 70  vivenciou  bruscas transformações e, quem não se enquadrou nelas, ficou perdido no tempo e no espaço. Sou um sobrevivente. Cheguei aos anos 80 na adolescência e caminhei minha juventude nos anos 90. De 1970 até 1990, o mundo entrou em ebulição com o período da Guerra Fria até a derrubada do Muro de Berlim – que também pode ser simbolizado por outros muros. Nesse período, os jovens saíam do Ensino Médio e entravam para a faculdade com uma ideologia. A escola no período pós Revolução Industrial não significava apenas um sonho de ascensão no extrato social. Era muito mais que isso. Como vivíamos em mundo dividido entre capitalismo e comunismo, o estudante se engajava nas lutas contra o sistema, contra a exploração da mão de obra e pela politização das massas. Era pura utopia. Naquele momento ninguém sabia para onde iríamos caminhar, já que não existia algo que fosse centralizado e controlado, como se faz hoje com a internet, en...

Régua do mundo

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Jessé Souza* Recentemente, conheci um cubano que está de passagem por Roraima tentando chegar aos Estados Unidos. Ele só fala nisso. Acha que vai conseguir atravessar a fronteira de forma ilegal, se estabelecer, ganhar um “Green Card” ("Cartão de Residência Permanente nos Estados Unidos", um visto permanente de imigração concedido pelas autoridades daquele país) e ganhar muito dinheiro. Ele não consegue enxergar que, por onde passa, está sendo ajudado e encontra pessoas que acreditam na boa-fé e no sonho dele. E o ajudam, inclusive oferecendo trabalho para ele juntar dinheiro. Ao achar que a felicidade está apenas nos EUA, não consegue perceber que poderia se estabelecer em qualquer país da América Latina, recomeçar a vida e encontrar a felicidade. Já estive nos Estados em 2004 fazendo um intercâmbio cultural e profissional. Eu tinha ajuda de custo da Embaixada norte-americana para me manter, me locomover e me hospedar. Então, não tive que batalhar nada, a não ser ...

TWD do lavrado

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Jessé Souza * The Walking Dead, ou simplesmente TWD,  é um seriado norte-americano que também ficou famoso no Brasil. O enredo é muito fácil de ser entendido: a transformação da vida na Terra após um apocalipse zumbi, em que boa parte da humanidade foi infectada por um vírus misterioso que os transforma em mortos-vivos. Tirando as cenas de terror que mostram sangue e decapitações, o filme nos remete a uma profunda reflexão sobre o que seríamos caso perdêssemos tudo que hoje está em nossa volta: família, lar, bens materiais, vaidade, sobrevivência.... Como o mundo passou a ser dos zumbis, as pessoas que ainda restam passam a ser apenas sobreviventes desta nova terra. Na luta pela sobrevivência, em que um pedaço de chocolate ou tomar banho passam a ser algo extraordinário, começamos a refletir sobre nossas vidas e no que nos tornaríamos, caso não tivéssemos mais nada do que possuímos hoje. Então, me veio uma reflexão sobre no que os maus políticos de Roraima nos transf...

Trânsito e papelão

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Jessé Souza * Por que têm ocorrido muitos acidentes com mortes violentas no trânsito a cada semana? Somos um Estado de condutores irresponsáveis? Ou de motoristas ruins e mal-formados? Ou somos reflexos de um Estado onde as autoridades de trânsito estão falhando? Embora possa parecer difícil a resposta, ela não é complicada de ser respondida. Somos consequência de tudo isso e mais um pouco. Senão, vejamos, a começar pela formação de condutores. Não faz muito tempo, antes da mudança para o atual Código de Trânsito Brasileiro (CTB), éramos um Estado onde Carteira de Habilitação era distribuída como se doava buchada na fila do assistencialismo. O governo local fazia campanha eleitoral distribuindo habilitação em grandes “mutirões” no interior do Estado. Os candidatos e políticos organizavam caravanas com churrasco, cachaça e forró nos municípios onde os “testes” iriam ser feitos.  Esses “testes” poderiam ser feitos assim, pois não haveria muita diferença: jogar a ca...