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Resumo de como estamos

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Jessé Souza* Muda o governo, mas a desesperança não. O cenário de segunda-feira foi absolutamente preocupante para quem mora em Roraima: enquanto um policial com uma arma e um colete a prova de bala da corporação executava covardemente três pessoas a tiros e tentou matar outra, mais presos fugiam da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo. Quem achava que o dia já teria sido de muita violência e que bastava para um início  de semana, três elementos atacavam um policial em frente a uma movimentada faculdade particular, na área nobre de Boa Vista, a poucos metros de um dos shoppings. Horas depois, já na madrugada de terça-feira, um casal de moto foi literalmente estraçalhado em uma colisão frontal com um caminhão, no trecho sul da BR-174. Significa que a segunda-feira foi o retrato fiel do que Roraima se transformou: insegurança, violência e desesperança, com policiais se confundindo com bandidos, enquanto os bandidos sem farda aterrorizam a cidade, não poupando sequer poli...

Nariz virado para cima

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Jessé Souza * Depois de gastar R$2 milhões, a Prefeitura de Boa Vista reinaugurou a Orla Taumanan com festa e rojões, na sexta-feira passada. Mas haveria motivo para tanta festa assim? Particularmente, para quem ganhou dinheiro para fazer aquela obra, tinha motivos de sobra para soltar fogos de artifício. Porém, não para o povo, que bancou a obra e a festa, nem tanto. Como tenho um site que incentiva o turismo receptivo (www.roraimadefato.com/main), e a Orla é um dos locais turísticos principais do Estado, então decidi ir por lá neste fim de semana para checar a nova estrutura. Nada de extraordinário, nada de espetacular, a não ser o que era esperado: a reforma geral do piso e a reconstruções dos quiosques. Porém, um grande problema logo se apresenta para quem vai aos quiosques. E não precisa ser engenheiro, arquiteto ou babalorixá para prevê que as coberturas feitas para abrigar o público daqueles quiosques não resistirão à mínima chuva de verão, muito menos a um inverno...

Do tempantigo

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Jessé Souza * Posso dizer que tive a infância e a adolescência privilegiadas em um tempo em que livro era uma raridade. Por mais absurdo que possa parecer, a TV daquela época, das décadas de 70 e 80, supriram muito a lacuna da falta de livros e da distância das escolas com a leitura e com a cultura. Na transição dessas duas décadas, passava Charlie Chaplin nos programas vespertinos (sim, isso mesmo: em preto e branco,como no cinema mudo, apenas com algumas legendas). Os programas de humor eram com os Três Patetas e Jerry Lews. Humor puro, sem duplo sentido, sem apelação, com inocência, com direito a pastelão e tudo o mais. Também nos programas vespertinos passavam os longos filmes de Elvis Presley. Como assim? Isso mesmo. O “Vale a pena de ver de novo” de nossa época era com as aventuras de Elvis Presley, que lutava contra bandidos e dava shows de rock por onde passava, cantando, tocando e dançando em cima de capô de carro e da mesa dos bares. Ainda lembro que um de noss...

O vídeo e a escola

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Jessé Souza * Assisti ao vídeo do garoto derrubando tudo na sala de uma escola pública. Tudo devidamente filmado com as vozes de professores dizendo: “deixa ele”, “não toca nele”, “deixa ele quebrar tudo”. E dá-lhe comentário nas redes sociais do tipo “se fosse, meu filho...”, “projeto de bandido...” (aí já metem o PT no meio), “deliquente desde pequeno”... Estudei no antigo Magistério, no final da década de 80, que era nossa antiga faculdade quando não havia universidade para formar professores. E encarei uma sala de aula na educação infantil, cujos alunos tinham idade muito semelhante a do garotinho do vídeo. As imagens mostram claramente que o garotinho hesitava em derrubar as coisas. Mas ele se via incitado de alguma forma pelas vozes: “deixa”, “não toca”, “quebra tudo mesmo”. Ao hesitar, ele estava querendo que apenas alguém o impedisse de alguma forma, mas da maneira correta, com as palavras e atitudes certas. Já fui criança birrenta e sei que, muitas vezes, fa...

Política do esfola-e-mata

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Jessé Souza* O que impressiona é o avanço de uma política do “esfola e mata”, que se amplia feito erva daninha a partir das redes sociais. É como se estivéssemos vivendo um “apocalipse zumbi”, em que a desumanização tornou-se regra de sobrevivência. A esperança saiu do discurso, a tolerância tornou-se quase uma ofensa e pedir justiça pelas vias legais e regras democráticas virou um sinal de demência. Quem está com a farda representando o Estado e a lei não hesita em esfolar quem lhe olha feio ou resmunga por seus direitos. É como se fosse um estado de exceção velado, no qual as leis só devem ser cumpridas quando tiver alguém olhando, a imprensa registrando e a sociedade monitorando. Quando os olhos fecham e as câmeras desligam, vale o esfolamento geral. A regra está se tornando o inverso do que diz a lei: agora todos são culpados até que provem o contrário. Parece que há uma ânsia de eliminar tudo aquilo que conquistamos a duras penas, como a democracia, as leis cidadãs, ...

Zaralho de asa

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Jessé Souza* Quem conhece a Praça da Bandeira sabe que ali era um lugar para as famílias se encontrarem, com feirinhas nos fins de semana e feriados prolongados. Era também um lugar de eventos cívicos para os estudantes e, em outras épocas mais distantes, de solenidades oficiais em datas importantes. Portanto, as quadras de esportes eram apenas um complemento dentro desse contexto, não era algo em destaque e com prioridade, pois a praça servia também como um espaço ao ar livre para as pessoas passarem o tempo, passearem com a família e observarem o visual de uma cidade de céus sempre limpos e bonitos.   Mas eis que a Prefeitura de Boa Vista, sem respeitar a História e o contexto, construiu um ginásio coberto, parecendo um monstro de lata que surgiu como se fosse em um filme de Transformer intervindo na realidade dos seres humanos, o que descaracterizou completamente o lugar, enterrando mais uma vez o respeito aos lugares históricos. Esse não é o único e primeiro ...

Um sobrevivente

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Jessé Souza* Quem nasceu nos anos 70  vivenciou  bruscas transformações e, quem não se enquadrou nelas, ficou perdido no tempo e no espaço. Sou um sobrevivente. Cheguei aos anos 80 na adolescência e caminhei minha juventude nos anos 90. De 1970 até 1990, o mundo entrou em ebulição com o período da Guerra Fria até a derrubada do Muro de Berlim – que também pode ser simbolizado por outros muros. Nesse período, os jovens saíam do Ensino Médio e entravam para a faculdade com uma ideologia. A escola no período pós Revolução Industrial não significava apenas um sonho de ascensão no extrato social. Era muito mais que isso. Como vivíamos em mundo dividido entre capitalismo e comunismo, o estudante se engajava nas lutas contra o sistema, contra a exploração da mão de obra e pela politização das massas. Era pura utopia. Naquele momento ninguém sabia para onde iríamos caminhar, já que não existia algo que fosse centralizado e controlado, como se faz hoje com a internet, en...