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Turbinas do rincão

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Jessé Souza* Chegamos a uma encruzilhada depois de longo trajeto de enganação política a que o povo de Roraima foi submetido com relação à questão energética. Quem pertence à minha geração vem sendo ludibriado desde a adolescência com projetos que não passaram de muito gogó e demagogia para enganar eleitor em tempo de eleição. Um dos grandes engodos foi a chamada Hidrelétrica de Cotingo, que permeou os discursos dos políticos por longo anos, mesmo eles sabendo que esta obra seria difícil de ser negociada por envolver a intricada questão indígena. Ainda assim, foi usada nos discursos para enganar a opinião pública. O tempo passou e a energia de Guri chegou com o discurso de redenção, mesmo que os políticos também soubessem que o linhão vindo da Venezuela teria prazo de validade, o que restou comprovado, agora. Nesse meio tempo, as autoridades cruzaram os braços, porque, para muitos, não interessa Roraima se desenvolver e sair do buraco, pois os problemas que a população enf...

Uma sentença

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Jessé Souza* A situação chegou a um nível que, em Roraima, já foi ultrapassada a barreira do “sabe com quem você está falando?”. Agora, com os últimos acontecimentos, a lógica é outra: “Saiba com quem você está falando”, ou seja, “aprenda a falar com quem é superior a você”. Não se pergunta mais. Agora afirma-se como se fosse uma sentença (em alguns casos, de morte, como foi o triplo homicídio praticado por um policial militar). A impunidade é apenas um desses gatilhos que dispara o sentimento de superioridade e arrogância. Como os erros são negligenciados, isso é um passo para os crimes serem cometidos no exercício da função pública. E não me refiro somente a policiais, e sim a autoridades de uma forma geral. Há um descaramento para privilegiar os que se acham eleitos ou os que se colocam como parte integrante do poder - e o poder como extensão de sua casa e de seus negócios. Assim como a corrupção permite que as pessoas misturem dinheiro público com suas contas particu...

Resumo de como estamos

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Jessé Souza* Muda o governo, mas a desesperança não. O cenário de segunda-feira foi absolutamente preocupante para quem mora em Roraima: enquanto um policial com uma arma e um colete a prova de bala da corporação executava covardemente três pessoas a tiros e tentou matar outra, mais presos fugiam da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo. Quem achava que o dia já teria sido de muita violência e que bastava para um início  de semana, três elementos atacavam um policial em frente a uma movimentada faculdade particular, na área nobre de Boa Vista, a poucos metros de um dos shoppings. Horas depois, já na madrugada de terça-feira, um casal de moto foi literalmente estraçalhado em uma colisão frontal com um caminhão, no trecho sul da BR-174. Significa que a segunda-feira foi o retrato fiel do que Roraima se transformou: insegurança, violência e desesperança, com policiais se confundindo com bandidos, enquanto os bandidos sem farda aterrorizam a cidade, não poupando sequer poli...

Nariz virado para cima

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Jessé Souza * Depois de gastar R$2 milhões, a Prefeitura de Boa Vista reinaugurou a Orla Taumanan com festa e rojões, na sexta-feira passada. Mas haveria motivo para tanta festa assim? Particularmente, para quem ganhou dinheiro para fazer aquela obra, tinha motivos de sobra para soltar fogos de artifício. Porém, não para o povo, que bancou a obra e a festa, nem tanto. Como tenho um site que incentiva o turismo receptivo (www.roraimadefato.com/main), e a Orla é um dos locais turísticos principais do Estado, então decidi ir por lá neste fim de semana para checar a nova estrutura. Nada de extraordinário, nada de espetacular, a não ser o que era esperado: a reforma geral do piso e a reconstruções dos quiosques. Porém, um grande problema logo se apresenta para quem vai aos quiosques. E não precisa ser engenheiro, arquiteto ou babalorixá para prevê que as coberturas feitas para abrigar o público daqueles quiosques não resistirão à mínima chuva de verão, muito menos a um inverno...

Do tempantigo

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Jessé Souza * Posso dizer que tive a infância e a adolescência privilegiadas em um tempo em que livro era uma raridade. Por mais absurdo que possa parecer, a TV daquela época, das décadas de 70 e 80, supriram muito a lacuna da falta de livros e da distância das escolas com a leitura e com a cultura. Na transição dessas duas décadas, passava Charlie Chaplin nos programas vespertinos (sim, isso mesmo: em preto e branco,como no cinema mudo, apenas com algumas legendas). Os programas de humor eram com os Três Patetas e Jerry Lews. Humor puro, sem duplo sentido, sem apelação, com inocência, com direito a pastelão e tudo o mais. Também nos programas vespertinos passavam os longos filmes de Elvis Presley. Como assim? Isso mesmo. O “Vale a pena de ver de novo” de nossa época era com as aventuras de Elvis Presley, que lutava contra bandidos e dava shows de rock por onde passava, cantando, tocando e dançando em cima de capô de carro e da mesa dos bares. Ainda lembro que um de noss...

O vídeo e a escola

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Jessé Souza * Assisti ao vídeo do garoto derrubando tudo na sala de uma escola pública. Tudo devidamente filmado com as vozes de professores dizendo: “deixa ele”, “não toca nele”, “deixa ele quebrar tudo”. E dá-lhe comentário nas redes sociais do tipo “se fosse, meu filho...”, “projeto de bandido...” (aí já metem o PT no meio), “deliquente desde pequeno”... Estudei no antigo Magistério, no final da década de 80, que era nossa antiga faculdade quando não havia universidade para formar professores. E encarei uma sala de aula na educação infantil, cujos alunos tinham idade muito semelhante a do garotinho do vídeo. As imagens mostram claramente que o garotinho hesitava em derrubar as coisas. Mas ele se via incitado de alguma forma pelas vozes: “deixa”, “não toca”, “quebra tudo mesmo”. Ao hesitar, ele estava querendo que apenas alguém o impedisse de alguma forma, mas da maneira correta, com as palavras e atitudes certas. Já fui criança birrenta e sei que, muitas vezes, fa...

Política do esfola-e-mata

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Jessé Souza* O que impressiona é o avanço de uma política do “esfola e mata”, que se amplia feito erva daninha a partir das redes sociais. É como se estivéssemos vivendo um “apocalipse zumbi”, em que a desumanização tornou-se regra de sobrevivência. A esperança saiu do discurso, a tolerância tornou-se quase uma ofensa e pedir justiça pelas vias legais e regras democráticas virou um sinal de demência. Quem está com a farda representando o Estado e a lei não hesita em esfolar quem lhe olha feio ou resmunga por seus direitos. É como se fosse um estado de exceção velado, no qual as leis só devem ser cumpridas quando tiver alguém olhando, a imprensa registrando e a sociedade monitorando. Quando os olhos fecham e as câmeras desligam, vale o esfolamento geral. A regra está se tornando o inverso do que diz a lei: agora todos são culpados até que provem o contrário. Parece que há uma ânsia de eliminar tudo aquilo que conquistamos a duras penas, como a democracia, as leis cidadãs, ...